Jones da Silva Lopes - A bola da vez

publicado em 
24/02/2012

Douglas, Bobô, Charles, Ronaldo Passos, entre tantos outros ex atletas tricolores em diferentes tempos, o que eles têm em comum? Antes da resposta,  bom também dar uma passadinha pelos tempos atuais e ver a história de Ávine, Dodô, Maranhão e Gabriel, sem esquecer de outros não citados. No meio de nomes talentosos, sabemos, também muita controvérsia, já que no mundo do futebol a paixão fala muito mais forte do que a razão, onde as arquibancadas estão repletas de "técnicos" dedicados e exigentes. 

Em torno do atleta de hoje existem cada vez mais empresários, patrocinadores, publicidade e mídias, onde, como diria uma personagem de novela da tv, cada gol, ou cada não gol (que o diga o Deivid do Flamengo), é um flash.

Citados Ávine e Dodô, ambos na lateral esquerda do Bahia, dois exemplos de origens diferentes, o primeiro, da base e mesmo com apenas 24 anos já tem cerca de 10 anos no clube. Ao contrário, Dodô veio emprestado em 2011 e foi afastado por contusão grave, mas não sem antes ganhar a confiança e unanimidade dentro do estádio de Pituaçu. Esses dois laterais, no entanto, passaram antes pela ira e pelas vaias do torcedor mais impaciente e intolerante a erros ou, simplesmente, intolerantes ao tempo de maturação de cada jogador. Ávine teve sofrimento mais longo, aguerrido em momentos históricos de tristeza tricolor na terceira e na segunda divisão, quando ele estava presente e, ao contrário de muitos torcedores, Ávine foi tolerante às vaias e cobranças duras, seguro da necessidade da sua entrega total no objetivo de jogar o seu melhor futebol. O jovem Ávine cresceu no Bahia e é um atleta seguramente consagrado pelos torcedores há pelo menos 2 anos. As suas contusões ao longo de 2011 deram espaço para o jovem Dodô passar pelo mesmo drama das cobranças no caldeirão azul vermelho e branco. O resultado, esperado ou surpreendente, foi a consagração de mais um lateral esquerdo que virou xodó no final do último Campeonato Brasileiro. As diferentes histórias de Ávine e Dodô desafiam o torcedor sobre a necessidade de tolerância e paciência com os seus jovens atletas.

Em paralelo a essa condição estão aqueles que comentam sobre o desempenho dos atletas e, se ao final de cada jogo de futebol tivéssemos que escolher os piores comentários das rádios e tvs, para não dizer "escolher os piores comentaristas", ou, amenizando mais "escolher os comentaristas que foram menos felizes no uso das suas respectivas palavras", provavelmente não teríamos uma lista pequena de candidatos. Aos formadores de opinião, sabemos, cabe informar para formar, ou seria melhor dizer "formar para informar"? Nessa última fica implícita a necessidade de formar (analisar) o seu próprio juízo de valor antes de levar a sua voz e crítica ao microfone e a todos os meios de publicação em massa. Mas tudo é dinâmico e rápido o suficiente para favorecer os atropelos. Assim como no parágrafo anterior, muitos talentosos serão queimados vivos e outros já estão sendo constantemente sufocados e sem chance de melhorar o seu percurso dentro do clube em que atuam. Claro, afinal, atletas vivem de emoção, que é um sentimento fundamental para o equilíbrio e a confiança naquilo que fazem. A razão nos leva a pensar, raciocinar demais, isso é bom, claro, mas é algo para ser feito fora do campo. Dentro das 4 linhas, como dizem os maiores craques e entre eles o rei de todos os tempos: se pensar, não faz. Emoção, explosão e confiança, tudo integrado. De onde vem então essa energia, essa confiança? Se estiver jogando em casa, não temos dúvida, a maior confiança vem da massa que apoia, que vibra, que acredita no seu atleta. Ao jogar no território adversário a crença segue em cada jogador, na trilogia que soma emoção, explosão e confiança com resultados maiores do que qualquer raciocínio previamente elaborado. O atleta leva a força da sua nação para outras terras. Em sua bagagem leva uma montanha de emoções.

Dodô Pires se emocionou ao final da temporada 2011, infelizmente interrompida antes do que se esperava. Ao levar a solapada que o tirou dos gramados por nada menos que 6 meses, Dodô viveu como nunca o reconhecimento da nação tricolor, mas levou também a lembrança de dias tristes em que tinha como maior adversário o próprio torcedor do Bahia. Foram 3 a 4 meses de instabilidade e sem nenhum reconhecimento até que ele pudesse superar a onda de absoluta desconfiança. A nação é também cruel e, na maioria das vezes, tira dos jovens a condição emocional para mostrar o seu talento. Em 2011 até mesmo o experiente Souza passou por maus bocados, a ponto dos dirigentes precisarem sair em sua defesa e alertar os torcedores sobre o histórico do jogador, com resultados relevantes em grandes clubes.

Diretorias, gestores de futebol e técnicos erram, sabemos disso. Insistir no erro e encarar a ira do torcedor quando acreditam em jovens talentos é, no entanto, uma causa nobre. Torcedores e profissionais da imprensa precisam ser responsáveis, mesmo sem deixar de fazer as críticas. Voltando ao ponto inicial dessa prosa: sejam os históricos craques Douglas, Bobô, Charles e Ronaldo Passos ou o brasileiríssimo Jones da Silva Lopes, o que afinal eles têm em comum? A resposta é simples: a dificuldade em superar a desconfiança do torcedor a qualquer sinal de erro ou de jogada improdutiva. 


Passada a turbulência do ano de 2011, quando a era Jobson levou a torcida do extase, da reverência ao craque ao aplauso à diretoria pela sua dispensa, vivenciamos também as sapecadas em Souza, Robert (esse, então, só tropeços), além de outros. Mas restou ao Jones o maior teste de tolerância, no centro do alvo para ser apedrejado mesmo diante da sua aprovação por todos os técnicos que passam pelo Bahia. Se falta uma explicação da diretoria do clube para a sua permanência, falta também ao torcedor e à imprensa a percepção de que ninguém consegue nadar bem contra a correnteza. O Bahia goleou o Fluminense de Feira nessa quinta-feira em Pituaçu e, mesmo assim, entenderam como necessário apontar o pior jogador do Bahia em campo. Na ausência de um atleta que tenha desequilibrado o grupo, os donos da voz na rádio soltaram o bordão no Jones. Na visão do Falcão o Jones cumpriu bem o desafio. Nos 30 minutos finais em que atuou, ainda que não tenha participado em muitas jogadas, com ele em campo o grupo fez mais 3 gols.

Comparações à parte, Jones pode estar longe de ser o craque sonhado pelo torcedor, assim como não era também o Ávine de 4 ou 5 anos atrás. O próprio Dodô seria, 3 meses antes do seu auge tricolor, detonado num suposto paredão ao estilo bigbrother caso fosse dado aos torcedores o direito de eliminação do craque.


Em comum, então, entre atletas jovens, medianos ou com mais de 30, craques ou não, é a constatação de que a linha divisória entre o erro e o acerto, entre cair na graça ou na desconfiança do torcedor, é muito tênue. Charles, antes de ser campeão pelo Bahia em 88, caminhava para desistir da carreira, desanimado com o seu desempenho e reconhecimento. Superou, venceu e passou com méritos pela Seleção Brasileira. Se os exemplos parecem esquecidos vale alertar que desconfiar dos talentos dos atletas e fazer a crítica construtiva é uma atitude profissional. Respeitar os jovens, seus potenciais e direitos de errar e acertar, é obrigação de todos.



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Um comentário:

  1. Faço esse comentário com muita tranquilidade porque os que me conhecem sabem que tenho o mesmo pensamento. Lembro de um jogo da série B contra o Figueirense em que o Bahia tava ganhando de 2 a 0 e, a cada bola que Ávine pegava e parava, a torcida gritava, querendo que a jogada fosse rápida. Resultado... o Figueira empatou.
    Assim acontece com muitos jogadores que cumprem função tática e não aparecem ao público. Infelizmente a torcida não tem paciência. É só lembrar o caso de Cícero, que jogava de 2º volante e só recebia crítica. Todos elogiam Falcão, mas, é só testar JOnes no ataque que todos criticam. Deixa o treinador trabalhar. Lógico que o jogador só vai entrar em campo se tiver a confiança do treinador. E, se entrar, é melhor ter tranquilidade pra jogar e render, do que ficar sob vaias, pressão etc...

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